Fotografia by Né - Ribeira dos Caldeirões, Achada - Nordeste São Miguel Açores

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Pessoa(s)...

 

"Põe quanto és
No mínimo que fazes"
Mesmo quando já não for o aniversário de Pessoa
E o Ricardo Reis que há em ti te doa
Por não conseguires ser um heterónimo diferente
Ou simplesmente mais um que cala e consente...

sábado, 2 de janeiro de 2021

E o Amor acontece?

"Whenever I get gloomy with the state of the world, I think about the arrivals gate at Heathrow Airport. General opinion's starting to make out that we live in a world of hatred and greed, but I don't see that. It seems to me that love is everywhere. Often it's not particularly dignified or newsworthy, but it's always there - fathers and sons, mothers and daughters, husbands and wives, boyfriends, girlfriends, old friends. When the planes hit the Twin Towers, as far as I know, none of the phone calls from the people on board were messages of hate or revenge - they were all messages of love. If you look for it, I've got a sneaky feeling you'll find that love actually is all around."

Claro que a voz de Hugh Grant emprestada à personagem de David, ou melhor, o Primeiro Ministro, confere ainda mais charme a esta introdução, mas a verdade é que "O Amor Acontece" me conquistou e reconquista de cada vez que o volto a ver (pelo menos uma vez por ano para manter o meu mundo na sua órbita) logo com esta introdução. Afinal é disso que se trata: o triunfo do Amor em todas as coisas e sobre todas elas.

Não deixo de achar graça àquelas pessoas que já não me veem há muito tempo (ou às que até me veem, mas que se lembram de vez em quando de dar voz à curiosidade sobre a minha vida sentimental) e que se atrevem a perguntar-me pelo amor na minha Vida, na esperança de que eu possa partilhar com elas detalhes mais ou menos sórdidos e minuciosos sobre as minhas paixões, dado o seu desconhecimento de um possível namorado ou marido. Coloco sempre o meu sorriso bem-educado e corrijo a sua pergunta com a minha resposta pluralizada para AmorES, dos quais a minha existência está cheia. Não façam esse ar surpreendido! Até parece que é possível viver sem nos apaixonarmos constantemente! (Só por acaso e já que vos falava de um dos meus filmes preferidos, não me importava nada de ter um affairzinho com o Hugh Grant ou com o Colin Firth, para quem seria uma Aurélia bem dedicada!).

Pondo de lado a minha vida emocional (sobre a qual nem com a maior parte dos meus amigos falo, por isso não é no mundo cibernético que o vou fazer), não deixo de me sentir fascinada pela força desse sentimento que nos cola uns aos outros e às coisas desde os primórdios da humanidade. Desde que despertamos, podemos não nos aperceber, mas apaixonamo-nos infinitas vezes, primeiro pelo chão que nos recebe ao sair da cama e que nos protege de cairmos num abismo de inexistência e, por último, pela cama confortável que nos volta a receber ao fim de um dia mais ou menos extenuante. Ninguém nos ouve a declamar poemas de amor ao chão ou à cama, mas os átomos que nos compõem já dependem dessa relação para não se desintegrarem e a nossa permanência neste Universo é, sem dúvida, o maior hino de Amor à Vida.

É claro que, como exemplificava o Hugh, ou melhor, o David (como somos íntimos nas minhas fantasias, não o vou chamar de Sr. Primeiro Ministro!), há vários tipos de amor e a maior parte nem é digna de registo. Pois bem, eu quis e quero dignificá-los. Talvez já tenha visto o filme demasiadas vezes, mas o Natal foi há pouco tempo, ainda me sinto lamechas e tenho a banda sonora do mesmo a repetir-me, não só ao ouvido, mas sobretudo ao coração: "All you need is love". E não gosto de cantar sozinha...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

(Re)começo...

 


Recomeço porque posso (e porque quero!), sem angústia e sem pressa, este projeto ao qual dei início a 1 de janeiro de 2010. Durante sete anos, fui deixando aqui pedaços da minha alma em forma de escrita. Podiam passar-se meses sem vir aqui partilhar nada, mas tinha como tradição escrever pelo menos um texto no primeiro dia do ano, em jeito de homenagem ao dia de aniversário deste cantinho.

Em 2018 não o fiz. Parece que o prenúncio do ano difícil que teria amordaçou a minha inspiração à nascença, sem que o soubesse ou pensasse sequer nisso. De facto, 2018 trouxe a doença à minha família, ao meu quotidiano. Sem aviso prévio, sem forma possível de preparação, tive de lidar com um tumor maligno diagnosticado ao meu Pai. Num dia estava bem, noutros dois estava a sentir-se meio abatido (achamos que era uma gripe!) e no dia seguinte deu entrada no hospital para só sair com um diagnóstico incerto, um reencaminhamento quase imediato para o Garcia de Orta, um diagnóstico confirmado e assustador, uma cirurgia e o regresso com sequelas da mesma. Seguiu-se a luta de um ano e todas as prioridades se alteraram, entre a fisioterapia, a radioterapia, os diversos internamentos, as crises, os sustos, o receio constante... Se a escrita poderia ter sido um calmante, um analgésico, um paliativo? Provavelmente... Mas confesso que nem tive espaço no coração para a encontrar porque ele estava a bater em piloto automático.

2019 também não teve um texto de ano novo neste blogue. Foi o ano em que a morte visitou a minha realidade. Até então apenas tinha perdido os meus avós e, por mais que fosse próxima da minha Avó materna, ela tinha partido depois de 97 anos neste planeta, tendo deixado todos os mimos em dia em relação à minha pessoa e a sua perda, embora difícil (e não são todas?), foi natural em termos de superação. Mas 2019 trouxe a Morte que não fazia parte dos planos até há um ano. O meu Pai foi diagnosticado ainda aos 64 anos, quando se preparava para desfrutar do descanso depois de uma vida de labuta. De forma quase profética, costumava dizer: "Quando um homem chega à reforma, já não tem saúde para a gozar." Ironicamente assim foi. O corpo dele esteve mais um ano (menos dois dias) depois do internamento connosco, mas o seu cérebro, invadido pelo tumor, já perdera a sua essência e esse é um cenário ao qual nenhum familiar deveria ter de assistir porque destrói toda a crença em relação à resistência das nossas faculdades mentais. Por mais que se tenha lido e ouvido sobre o assunto, o luto é um processo pessoal e intransmissível. Não vou descrever o meu, até porque não o saberia fazer, mas garanto que é a maior fonte de autoconhecimento e que é interminável.

Se me reportar ao primeiro dia de 2020, também não sei porque não deixei aqui nenhumas palavras. Talvez achasse que, uma vez interrompida esta minha tradição, já não valeria a pena retomá-la. A verdade é que seria mais um ano de desafios, desta feita não só na minha história pessoal, mas para toda a Humanidade. Não vou escrever sobre o vírus que invadiu as nossas rotinas e que nos obrigou a reaprender a viver e a coexistir porque é assunto mais do que tratado. Também não vou expor os meus sentimentos em relação ao tema porque serão provavelmente semelhantes aos de tantos outros seres humanos.

Depois deste interregno, hoje acordei (já tarde, como manda a lei do primeiro dia do ano, porque, depois dos festejos e brindes muito caseiros, decidi começar o ano a rever um dos filmes que repetirei até à exaustão e do qual nunca me cansarei, "O Amor Acontece") e lembrei-me de vir aqui deixar um texto. A escrita pode ser tecida de tantas emoções. Quero entrelaçar esta com os fios da minha esperança de que 2021 seja um ano melhor. Que, simbolicamente e sob todas as suas formas, o Amor aconteça e nos continue a alimentar nesta caminhada. 

Antes de chegar à página do blogue, parei nas notícias e descobri que faleceu o fadista Carlos do Carmo. Escolhi uma playlist dele no Spotify como banda sonora enquanto escrevi. Coincidência ou não, neste preciso momento a voz imortal dele canta uma das minhas letras preferidas, "No teu poema". E eu agarro-me aos versos que me ecoam na alma:

"No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida"

Que nos possamos continuar a debruçar para a vida e a respirar com coragem até conseguirmos preencher este verso em branco e sem medida com a poesia do nosso existir...

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Amostra de poema...

Hoje tive de escrever um poema,
Só um, assim a medo,
Só porque sim,
Só porque o degredo 
De não o escrever
Doía mais
Do que o ver escrito...

domingo, 29 de janeiro de 2017

Incentivos-carícia...



Não tenho andado muito por aqui… Não que a escrita tenha deixado de palpitar em mim, porque está sempre lá. Mas vai-se enchendo os dias com outros afazeres e ela vai-nos simplesmente acompanhando, sem passar para nenhum papel ou teclado. Sinto pena. É talvez pecado…
Mas há domingos em que acordamos sem despertador e agarramos no telemóvel pousado na mesa de cabeceira para sabermos como se portou o mundo enquanto dormíamos. A nova rotina é esta. Substituiu a leitura dos jornais ou, mais tarde, a consulta dos sites de notícias. Agora basta abrir as redes sociais e ficamos atualizados, não só em relação às novidades a nível planetário, mas também às cusquices a título mais local.
E num desses domingos, temos dois emails a informar de dois novos comentários ao que escrevemos aqui. Abrimo-los com a curiosidade de conhecer a crítica, mesmo quando este espaço tem andado mais parado. E descobrimos que vem de alguém que já citamos, um poeta dos tempos modernos… E isso contagia-nos. Desperta-nos. Acaricia-nos a alma que ainda sonha em ser escritora um dia (daqueles dias que se situam no longínquo tempo da reforma).
E decidimos começar a acariciar o teclado também. Não nos tínhamos esquecido de como sabe bem, mas é sempre como se nos reencontrássemos com uma metade nossa que se mantém mais adormecida. E tudo o que estava dormente parece querer sair. Sonhamos uma vida em que pudéssemos fazer isto todos os dias. Pelo menos todos os domingos. Sabemos que o sonho é utopia e que se vão passar dias, semanas, meses até que voltemos aqui. 
Mas saber que este AQUI existe e que algures num ALI distante alguém poderá ler isto faz-nos começar o domingo com o mais curto e melhor poema que pode existir: o Sorriso de uma Alma...

domingo, 1 de janeiro de 2017

Na alvorada de mais um ano...


"Ainda que os teus passos pareçam inúteis, vai abrindo caminhos, como a água que desce cantando da montanha. Outros te seguirão…"
Antoine de Saint-Exupéry

Mais um ano se espraia diante de nós, qual oceano que nos seduz com as suas ondas interminavelmente compassadas… Contemplamo-lo na paz da sua primeira alvorada e achamos que é infinito. Vamos ter tempo para tudo, inclusivamente para virmos aqui escrever…
Ainda não fomos enrolados pela força das marés; esquecemo-nos de como vamos ter dificuldade em respirar para sobreviver à violência das tempestades; pomos de parte as golfadas de tempo precioso que vamos ter de engolir; adiamos a sujidade da areia molhada que nos vai puxar para o precipício tantas vezes…
Temos fé… Temos esperança… Temos o futuro à nossa frente! E mesmo que não tenhamos tempo de aqui vir deixar uma marca em palavras, sabemos que este areal existe. É bom visitá-lo e, a partir dele, contemplar o mar da nossa vida, quer ele esteja mais ou menos tranquilo, mais ou menos revolto. Porque as palavras são a nossa casa, o melhor ninho que escolhemos para construir o nosso lar...

domingo, 16 de outubro de 2016

Canja de Galinha para a Alma...


Há sensivelmente 20 anos eu era uma miúda de 16, à procura de rumo(s) para a vida... Nos intervalos de ser uma adolescente hiperativa e tagarela, devorava livros (sempre o fiz, desde que me conheço!). Numa viagem de volta ao meu país natal, deparei-me com um livrinho chamado Chicken Soup for the Soul. Nunca gostei muito de canja de galinha, mas o título cativou-me. E o livro também, por transbordar de positivismo numa altura em que andava na demanda pelos grandes ideias! Este verão encontrei esta reedição de vigésimo aniversário em Português. Abracei-me a ele (mais facilmente abraço livros do que pessoas) e trouxe-o para casa, em memória do outro. A minha prateleira dos "a ler" está sempre a abarrotar. Ir a uma livraria e não trazer um livro é-me quase impossível! Deixei-o na mesa de cabeceira com a instrução mental: para ir lendo uma história de cada vez em tempo letivo quando não tenho forças para ler mais nada. Assim fui fazendo... Acabei-o hoje, neste bonito fim de tarde de outono, naquele tempo semanal que reservo sempre para o que me ajuda a (re)encontrar a paz. Não é uma obra-prima da literatura. Está cheio de lugares-comuns e histórias já ouvidas, mas conforta, de facto, a alma. E a alma também precisa de canja de galinha, mesmo quando não está constipada...

Deixo-vos os seus 7 conselhos finais que tento aplicar na minha vida, como se fossem 7 colheres de canjinha para vos aquecer o espírito para a nova semana:

1-Siga pelo menos uma das suas paixões;
2-Faça algo que tenha significado para si e que lhe dê um propósito;
3-Tome nota das coisas boas;
4-Sorria para toda a gente;
5-Não pare de aprender;
6-Tenha uma perspetiva a longo prazo;
7-E, finalmente, guarde tempo para si.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Noturno sem Chopin...


Se me abraçar à insónia esta noite, talvez nasça um texto… Qual calor acontecido de uma entrega de dois corpos, quiçá emanem palavras de uma alma que hoje se sente cansada de vozes violentas e de gestos alarmantemente egoístas.
O sono espreita mas não se deita sobre nós. Prolongamos a sua ausência porque nos sentimos aconchegados pela escrita que nunca tem tanto tempo para ficar como desejaríamos. Adia-se a sua permanência e ela encolhe-se, remetendo-se a um futuro que desconhece se poderá tornar-se em presente alguma vez.
E se fosse acabasse por se tornar num livro? Sonhamos, embora acordados… Por enquanto ainda é apenas um blogue que poucos conhecem, menos leem e quase nenhum comenta. Se isso nos trava? Não… Apenas nos dá a ilusão de termos criado um refúgio só nosso onde podemos tentar curar uma insónia-de-quase-verão...

sábado, 2 de abril de 2016

Insónia de escrita...



Não tenho muito tempo para escrever… Talvez já não sinta muita necessidade de o fazer porque estou tranquila e a escrita sempre foi uma espécie de terapia ou um poço sem fundo para dentro do qual podia despejar todas as minhas reticências, exclamações e interrogações. Mas o apelo existe e às vezes faz-se sentir mais forte numa noite de insónia como esta.
Não é preciso saber que alguém me lê. Basta saber que eu própria paro para me ouvir. À medida que as letras se enfileiram e se abraçam em palavras, frases e parágrafos, vou-me lendo e redescobrindo. Como se a alma se despisse às camadas e se deitasse à minha frente para eu a contemplar. Talvez a escrita seja o meu melhor espelho e eu precise dele para me relembrar como sou.
E como sou? Não importa se sei que sou o que consigo ser. Nem sempre assim fui nem para sempre o serei. Mas quero escrever-me com um computador ao colo numa cama revirada pela insónia de uma interrupção letiva que me troca os sonos por me permitir sair da rotina. E quero fazê-lo sempre que me apetecer. Só porque sim. Sim. Só porque sou eu. Só porque. Sou eu. EU...

sábado, 16 de janeiro de 2016

Conselhos...


Há uns dias, ao ler o primeiro romance de alguém que sempre admirei pelas suas crónicas carregadas de bonitas e tocantes metáforas, deparei-me com esta lista de conselhos que gostava de seguir este janeiro, este ano, nos próximos janeiros, nos próximos anos, nesta vida:

"- Sê verdadeiro e vive todos os teus medos. Quanto mais tentes fugir-lhes mais eles virão atrás de ti.

- Independentemente das tuas desculpas, o que faz a diferença são as tuas escolhas.

- Acredita que todas as transformações se ancoram nos teus pequenos gestos.

- Sente as pessoas! E atenta que a forma como as sentes te condiciona mais do que imaginas. Assim sejas capaz de perguntar, diante delas, 'o que é que eu sinto', 'o que é que eu penso', 'que escolhas são as minhas'.

- Aceita que inteligência e bondade são, de certa forma, a mesma coisa.

- Muito mais importante do que seres positivo (ou otimista, se preferires) é seres verdadeiro. Ganha quem vê a verdade e o seu contrário.

- Por mais raro que te façam sentir, nunca és nem tão grande, nem tão bonito, nem tão bom como por vezes possas pensar. Encontrarás mais facilmente quem assim é quando reparas naquilo que lhe falta.

- Se não deres mais um passo, todos os dias, não te assustes: não morreste! Aquilo que faz a diferença é dares-te. Antes de todos os passos que tu possas dar."
Um Estranho no Coração, Eduardo Sá 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Happy New Year, blog!


Querido blogue,

Hoje é o teu aniversário e também começa mais um ano. Já me habituei a vir escrever-te, como se abrisse o livro do novo ano e tu fosses a primeira página. Ultimamente tenho vindo pouco aqui, mas não morreu em mim o bichinho da escrita. Pelo contrário. Ele continua a pulsar em mim e a gritar para sair, tentando ensurdecer os demónios da falta de tempo e energia sobresselente que é característica da minha vida laboral.
Sei que estás sempre aqui, pronto a receber os meus desabafos e, estranhamente, essa consciência faz-me sentir mais leve. Por mais que me falhem os ouvidos confidentes das pessoas da minha vida, sei que te tenho disponível, como um par extra no qual posso confiar para aliviar os fardos do quotidiano.
Hoje não vou escrever muito, mas quis marcar presença para te dizer que encaro mais um ano com o entusiasmo otimista-realista que me caracteriza. Não sei se estou pronta para tudo o que aí vem, mas também não quero estar demasiado preparada para as surpresas boas que 2016 me possa reservar. Quase todas as melhores coisas que me aconteceram foram inesperadas, por isso não preciso de estar a contar com tudo para ser feliz.
A mensagem que escolhi para começar mais uma etapa é para me inspirar e a todos os que por aqui passarem:

"Para descobrir o que é a felicidade,
Não há regras, mas princípios.
Abra a janela da sua mente,
Liberte as asas do seu imaginário,
Oxigene os pulmões da sua criatividade,
Rompa o cárcere da mesmice,
Percorra os passos nunca antes percorridos,
Ande por ares nunca antes respirados,
Encontre endereços desconhecidos,
E, em especial, o endereço dentro de si próprio."
Augusto Cury

2016, vamos a isso!

sábado, 15 de agosto de 2015

São os "loucos" da minha cidade...


"Todos temos um lugar onde a vida se acerta. Cada mundo tem um centro. O meu lugar não é melhor do que o teu, não é mais importante. Os nossos lugares não podem ser comparados porque são demasiado íntimos. Onde existem, só nós os podemos ver. Há muitas camadas de invisível sobre as formas que todos distinguem."
José Luís Peixoto

Gosto de tomar um bom e descansado pequeno-almoço fora de casa. Pertenço àquele grupo de pessoas que acorda com o estômago tão encolhido que nem consegue pensar em comida sem o sentir sufocar, mas uma hora e tal depois de me levantar sabe-me bem sentar-me num sítio calmo, a desfrutar de uma boa dose de vitamina C e de um croissant. Qual é a dificuldade? Encontrar um lugar que tenha uma boa relação qualidade - atendimento. O desafio extra? Descobrir um cantinho sem os "loucos" da minha cidade…
Um dia destes, daqueles cheios de afazeres acumulados, levou-me a um estaminé diferente, nos arredores. Ainda não tinha estacionado, já um sem-abrigo com aspeto duvidoso me estava a dizer pelo vidro do carro se me podia pedir um favor. Ao entrar no café, uma senhora falava alto sozinha enquanto os presentes se riam, provavelmente já habituados àquele espetáculo de variedades matinal. Comecei a perceber que os loucos da minha cidade afinal também existem nos subúrbios.
Ao aproximar-me do balcão para fazer o pedido, um senhor de meia-idade, de roupas espampanantes e sorriso desdentado, trazia a louça das mesas do café e disse à menina do caixa: 
- Já viu? Hoje comecei o meu turno cedo!
Percebi que era comum o senhor contribuir na limpeza das mesas e não me consegui impedir de esboçar um sorriso… Fui apanhada! O referido indivíduo disse logo:
- Já falo consigo!
Tentei encolher-me, pedi o meu pequeno-almoço e apressei-me para uma mesa vazia, amaldiçoando a hora em que sorrira e, embora ansiando por uma refeição descansada, instruindo-me mentalmente para me apressar. Mas o senhor não me dava tréguas. Enquanto continuava a levantar louça das outras mesas, falava alto:
- Não pense que escapa! Eu vou ter uma conversa consigo!
Envergonhada e irritada, não sei bem se disse ou se apenas pensei:
- Por favor, deixe-me tomar o pequeno-almoço descansada!
Por fim, aquele sorriso quase sem dentes veio junto da minha mesa e disse-me:
- Não é nada de mal, menina. Não lhe quero roubar tempo. Só lhe quero dizer uma coisa e a menina vai gostar. E aposto que se vai rir. A menina é muito bonita!
Apanhada desprevenida, senti-me corar, mas sorri… Ele continuou:
- Eu não disse que a menina ia gostar? E sabe como é que eu sei que é bonita? Porque a menina sorriu para mim sem me conhecer. E quem faz isso é bonito por dentro! E sempre que alguém me faz isso eu tenho de falar com essa pessoa para lhe dizer! Tenha um bom dia!
E foi-se embora, sem me importunar mais. Fiquei embasbacada. Já não precisava da vitamina C do sumo de laranja para ter forças de enfrentar o próximo "louco" da minha cidade… E não demorou a aparecer:
- Ai, menina, se não se importa que me sente na sua mesa… Não gosto nada de tomar o pequeno-almoço sozinha. A minha filha…
Sorri… Não queria deixar de ser bonita!

sábado, 8 de agosto de 2015

Fendas...


"(…) todos temos fendas. Como se todos nós começássemos por ser um pequeno barco. Depois vão-nos acontecendo coisas: pessoas abandonam-nos, ou não nos amam, ou não nos percebem, ou nós não as percebemos a elas, e perdemos, falhamos e magoamo-nos uns aos outros. E o barco vai abrindo pequenas fendas. E, sim, quando o barco abre fendas, o fim torna-se inevitável. (…) Mas há imenso tempo entre o momento em que as fendas começam a aparecer e o momento em que finalmente nos afundamos. E é só durante esse tempo que podemos ver-nos uns aos outros, porque conseguimos ver para fora de nós mesmos através dessas fendas e para dentro dos outros através das fendas deles. (…) quando se abrem fendas no barco, a luz consegue entrar. A luz consegue sair."
John Green

Revejo-me nesta sucessão de metáforas. Ao longo dos anos, fui (e não fomos todos?) colecionando fendas. Este pequeno e frágil barco que sou há muito que deixou de ter um casco imaculado e resistente a todas as tempestades. Fustigado por ventos e marés mais agrestes, foi ficando com alguns rombos. Alguns foram tão grandes que temi o naufrágio das forças, o afogamento da alma. Mas aqui estou.
Por esses rombos fui espreitando e conhecendo outras embarcações como eu. Fui estendendo a mão e aceitando ajuda para os remendos ou esticando os braços e colaborando nas reparações dos outros. E assim fui (e vou) navegando, mais cautelosa e evitando mares desconhecidos para não ser apanhada em tempestades inesperadas.
Mas não desisti de procurar a luz. Quando ela se derrama pelas fendas do meu barco, agarro-me a ela. Às vezes é apenas um fogo-fátuo passageiro, de outras nem chega a ser um pirilampo. Instantes, dias, experiências, pessoas… Sempre que trazem raios de luz deixo-os aquecerem-me. E a travessia fica mais confortável e a pele da alma mais aconchegada. Prossigamos...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Regras...


REGULAMENTO
(Aos praticantes do sonho)

Artigo 1º
Não estacione o coração em becos sem saída (demore o tempo estritamente necessário para largar despedidas ou carregar abraços)

Artigo 2º
Se beber, com o intuito de se lavar por dentro, não conduza (é quase impossível dar banho ao pensamento sem molhar a lucidez)

Artigo 3º
Antes de atravessar a realidade, pare, escute e olhe, certifique-se de que não existem ilusões em contra-mão (descalce os caminhos que já não lhe servem - caminhos são sapatos que a terra nos oferece para descalçar irrealidade)

Artigo 4º
Não abra a boca a beijos desconhecidos (especialmente aos conhecidos que se fazem desconhecer)

Artigo 5º
Evite adormecer em sonos usados (cansam mais do que subir o infinito a pé)

Artigo 6º
Seja mais sonhamor e menos sonhador (a dor não faz falta. Cria ausências)

Artigo 7º
Nunca faça amor em locais proibidos, salvo em legítima defesa da saudade.

Heduardo Kiesse (poeta angolano)

Este conjunto especial de regras fez-me pensar em como vivemos aprisionados pelas grilhetas do que há para fazer, de horários, de listas de tarefas, de prazos a cumprir e de rotinas durante grande parte do ano (e da vida). Chega uma altura em que temos de instituir uma nova regra: não ter regras, nem que seja por apenas alguns dias ou idealmente por um mês (pelo menos!).
Ao abrigo desse novo e temporário (des)regulamento, o despertador será o sol a bater na cara; o pequeno-almoço poderá ser ao lanche e o almoço ao jantar; a roupa terá o padrão da frescura e o calçado a textura de um areal; os óculos irão à cara para desbravar a montanha de livros a ler (só aqueles que nos chamam pelo nome que é nosso e não os que se impõem por nos terem sido oferecidos e sugeridos e por acharmos que temos de conhecer por dentro); os planos serão feitos consoante a meteorologia da vontade e os sonhos coloridos habitarão todas as sestas de cada entardecer.
E assim se cumprirá a única regra que se deveria impor a alguém: deverás ser feliz durante o máximo de tempo possível e transmitir essa felicidade aos que conheces. Porque só isso é obrigatório. Só isso é urgente. Só isso é qualidade de vida.  

sábado, 20 de junho de 2015

Sofrimento(s)...


"Muito se tem falado sobre o sofrimento dos professores. Eu, que ando sempre na direção oposta, e acredito que a verdade se encontra no avesso das coisas, quero falar sobre o contrário: a alegria de ser professor, pois o sofrimento de ser um professor é semelhante ao sofrimentos das dores de parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho."
Rubem Alves

É fim de ano letivo. Os professores estão cansados, talvez quase esgotados. Sofreram durante mais um ano letivo. Isso é inegável. Mas os que realmente continuam a ser e a querer ser mestres sabem que bastam as quatro semanas de agosto para se esquecerem de todas as dores sentidas.
Ainda é junho, ainda este ano escolar não acabou de arrefecer e já eles pensam no que podem e querem fazer no próximo. Despedem-se dos seus alunos, de alguns apenas até para o ano, de outros até para que a vida os cruze de novo, sabendo que vão ter saudades dos seus sorrisos barulhentos a entrar pela sala de aula.
Se querem e precisam urgentemente de férias e de descanso? Claro! Se querem e precisam inegavelmente de continuar nesta vida-missão que escolheram? Indubitavelmente. Apesar das feridas que nem sempre têm tempo de fechar e sarar para que se abram outras. Apesar dos Velhos do Restelo que lhes rogam pragas entre dentes ou alto e bom som.
Mas eles teimam (e vão teimar!) em continuar a olhar a imensidão deste oceano de oportunidades para ensinar e aprender que é a vida. E vão-se deixar levar pelas ondas do seu próprio entusiasmo. E hão-de descansar no areal de cada verão enquanto vão planificando na sua alma de professores a travessia a iniciar no próximo setembro...

sábado, 13 de junho de 2015

As crianças e a educação...


"Children aren't coloring books. You don't get to fill them with your favorite colors."
Khaled Hosseini

Findo mais um ano letivo (pelo menos em termos de aulas, apesar de ainda haver muito trabalho a fazer!), reflete-se sobre tudo o que foi feito e sente-se a emoção e a nostalgia que assinalam o desfecho de mais uma etapa.
Recordamos alunos que chegaram às nossas mãos há cinco anos atrás, cheios de infância no olhar e nos modos, e sabemos que os entregamos ao futuro a transbordar de uma adolescência que já quer entrar na idade adulta. Passamos o olhar pelas fotografias que fomos tirando e acompanhamos em retrospetiva o seu crescimento.
Não foram, de facto, simples livros de colorir para enchermos com as nossas cores favoritas. Mas encheram-se de cores vivas e lindas. Também não as escolheram sozinhos. Partimos de uma só paleta: a educação. Foi nela que misturamos as sugestões deles com as nossas orientações. 
E assim se fez escola, alegria, vida! Sei que um dia vou poder folhear as páginas do seu sucesso e que vou sorrir perante as ilustrações que também ajudei a preencher. E é isso que me dá a certeza de querer continuar a fazer o que faço, dia após dia, ano após ano!

domingo, 31 de maio de 2015

Folhas, flores e frutos...


"Sem frutos, valeu pelas flores; sem flores valeu pela sombra das folhas; sem folhas, valeu pela intenção da semente."

Ontem disseram-me esta frase. E eu apaixonei-me pela sua assertividade poética. Quantas vezes penhoramos todas as nossas energias para que as sementes que lançamos à terra germinem, criem raízes, desenvolvam folhas, mais tarde flores e, por fim, frutos?
Esfalfamos as pernas da alma, enquanto regamos e doseamos a luz que incide sobre o que plantamos. Revolvemos a terra com carinho, amparamos o caule tímido que desponta e se estica, para que ele se aguente firme e não tombe quando fustigado pelos vendavais do quotidiano. Vigiamos o espreitar do primeiro verde, aplaudimos a chegada das primeiras cores, colhemos a doçura dos pomos que admiramos desde a nascença.
Entristecemo-nos quando este espetáculo é só nosso... Quando a plateia daqueles que julgávamos que iam estar lá para se deliciarem connosco se impacienta e se ausenta antes do resultado final. E é aí que nos salva a frase que citei: tudo valeu a pena pela intenção que pusemos na semente. Intenção que só nós conhecemos, que só nos transplantamos e que só nós amamos… Saboreemos, pois, os frutos. Eles são nossos, por inteiro...

domingo, 26 de abril de 2015

Wilderness...


"It only had to do with how it felt to be in the wild. With what it was like to walk for miles for no reason other than to witness the accumulation of trees and meadows, mountains and deserts, streams and rocks, rivers and grasses, sunrises and sunsets. The experience was powerful and fundamental. It seemed to me that it had always felt like this to be a human in the wild, and as long as the wild existed it would always feel this way."
Cheryl Strayed in "Wild"

Sair de nós próprios, do nosso casulo, espraiar as asas e caminhar… Deixar que as pernas se cansem e os pulmões se encham, que os pés se movam e as vistas se regalem… Absorver a pureza do ar, captar o verde da paisagem, carregar as solas dos pés com a força da terra que, apesar de batida, nunca desvanece…
É, pois, vital fazer pausas na azáfama cheia de papéis da semana e ir ao encontro do vazio das preocupações, da ausência de documentos para ler, elaborar e preencher. Injetarmo-nos da melhor das adrenalinas, a que não se compra nem trafica, apenas se consome de forma livre e nas doses que conseguirmos encaixotar no nosso quotidiano imparável.
Se eu poderia viver sem natureza à minha volta? Poderia, mas seria apenas uma metade do que hoje sou, como uma árvore que ainda se mantém de pé, mesmo depois de já não ter seiva...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Futuro...


"São os nossos pequenos afazeres que nos projetam para o amanhã, o depois de amanhã, para o futuro."
Grégoire Delacourt

Dá-se por terminada mais uma fase de pousio. Descansou-se a terra do cérebro, regou-se a alma com a doçura da Páscoa, revolveu-se a vida abrindo sulcos de sorrisos que fizeram brotar gargalhadas…
Agora é tempo de voltar à rotina que nunca será demasiado monótona, pois ainda se acredita no efeito surpresa do Destino. Evita-se fazer prolepses para todo o trabalho que nos espera, porquanto se pretende degustar os últimos momentos de tranquilidade. 
Sabe-se que a vida que se escolheu nem sempre é perfeita... Quantas vezes nos desgasta, outras nos desencanta e até nos ameaça esgotar a resiliência? Mas é com ela que ainda queremos pintar o futuro. É nela que vemos as cores que escolhemos para enfeitar os nossos sonhos e os dos que nos passam pelas mãos.
Afadigamo-nos, por isso, nos preparativos para o regresso. Não nos renovamos por inteiro, mas refrescamos as vestes da nossa força de vontade. Haja trabalho, haja futuro, haverá forças e haverá Vida!

domingo, 5 de abril de 2015

"Vivam, apenas!"


"Vivam, apenas.
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos!"

José Gomes Ferreira

É uma mensagem perfeita para Dia de Páscoa. Embora não possamos deixar de sofrer por causa dos cadáveres que já foram de carne e osso e que antes partilhavam este dia connosco. Sei de quem os traz ainda frescos na memória e sente ainda o frio que a sua ausência deixou no lugar do sofá domingueiro.
Mas também sei que isso não nos impede de sermos bons como o sol e de brilharmos na vida uns dos outros, aquecendo-nos mutuamente. Sei que a liberdade do vento está ao nosso alcance, se deixarmos a preguiça do conforto e esticarmos as asas encolhidas pela inércia. Sei que podemos deixar brotar de nós um manancial inesgotável de frescura e de novidade e que podemos ser fonte de inspiração para os que nos rodeiam ou para os que olham para nós como modelos a seguir. Sei que não é impossível florirmos o rosto e a alma com as melhores cores do nosso sorriso e que isso pode dar o fruto da alegria nos ambientes que frequentamos.
E os cardos que nos querem envolver e tolher os nossos movimentos? E os espinhos que se cravam na carne do nosso viver e que nos sufocam a gargalhada? E a Morte que espreita a cada esquina e que vai ceifando aqui e ali, como lembrete de que não se esquecerá de nós nem dos nossos?
Tudo isso também é real. Tudo isso também é Vida. Tudo isso também fala alto e relembra: 
Vivamos, apenas!