Fotografia by Né - Ribeira dos Caldeirões, Achada - Nordeste São Miguel Açores

sábado, 16 de janeiro de 2016

Conselhos...


Há uns dias, ao ler o primeiro romance de alguém que sempre admirei pelas suas crónicas carregadas de bonitas e tocantes metáforas, deparei-me com esta lista de conselhos que gostava de seguir este janeiro, este ano, nos próximos janeiros, nos próximos anos, nesta vida:

"- Sê verdadeiro e vive todos os teus medos. Quanto mais tentes fugir-lhes mais eles virão atrás de ti.

- Independentemente das tuas desculpas, o que faz a diferença são as tuas escolhas.

- Acredita que todas as transformações se ancoram nos teus pequenos gestos.

- Sente as pessoas! E atenta que a forma como as sentes te condiciona mais do que imaginas. Assim sejas capaz de perguntar, diante delas, 'o que é que eu sinto', 'o que é que eu penso', 'que escolhas são as minhas'.

- Aceita que inteligência e bondade são, de certa forma, a mesma coisa.

- Muito mais importante do que seres positivo (ou otimista, se preferires) é seres verdadeiro. Ganha quem vê a verdade e o seu contrário.

- Por mais raro que te façam sentir, nunca és nem tão grande, nem tão bonito, nem tão bom como por vezes possas pensar. Encontrarás mais facilmente quem assim é quando reparas naquilo que lhe falta.

- Se não deres mais um passo, todos os dias, não te assustes: não morreste! Aquilo que faz a diferença é dares-te. Antes de todos os passos que tu possas dar."
Um Estranho no Coração, Eduardo Sá 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Happy New Year, blog!


Querido blogue,

Hoje é o teu aniversário e também começa mais um ano. Já me habituei a vir escrever-te, como se abrisse o livro do novo ano e tu fosses a primeira página. Ultimamente tenho vindo pouco aqui, mas não morreu em mim o bichinho da escrita. Pelo contrário. Ele continua a pulsar em mim e a gritar para sair, tentando ensurdecer os demónios da falta de tempo e energia sobresselente que é característica da minha vida laboral.
Sei que estás sempre aqui, pronto a receber os meus desabafos e, estranhamente, essa consciência faz-me sentir mais leve. Por mais que me falhem os ouvidos confidentes das pessoas da minha vida, sei que te tenho disponível, como um par extra no qual posso confiar para aliviar os fardos do quotidiano.
Hoje não vou escrever muito, mas quis marcar presença para te dizer que encaro mais um ano com o entusiasmo otimista-realista que me caracteriza. Não sei se estou pronta para tudo o que aí vem, mas também não quero estar demasiado preparada para as surpresas boas que 2016 me possa reservar. Quase todas as melhores coisas que me aconteceram foram inesperadas, por isso não preciso de estar a contar com tudo para ser feliz.
A mensagem que escolhi para começar mais uma etapa é para me inspirar e a todos os que por aqui passarem:

"Para descobrir o que é a felicidade,
Não há regras, mas princípios.
Abra a janela da sua mente,
Liberte as asas do seu imaginário,
Oxigene os pulmões da sua criatividade,
Rompa o cárcere da mesmice,
Percorra os passos nunca antes percorridos,
Ande por ares nunca antes respirados,
Encontre endereços desconhecidos,
E, em especial, o endereço dentro de si próprio."
Augusto Cury

2016, vamos a isso!

sábado, 15 de agosto de 2015

São os "loucos" da minha cidade...


"Todos temos um lugar onde a vida se acerta. Cada mundo tem um centro. O meu lugar não é melhor do que o teu, não é mais importante. Os nossos lugares não podem ser comparados porque são demasiado íntimos. Onde existem, só nós os podemos ver. Há muitas camadas de invisível sobre as formas que todos distinguem."
José Luís Peixoto

Gosto de tomar um bom e descansado pequeno-almoço fora de casa. Pertenço àquele grupo de pessoas que acorda com o estômago tão encolhido que nem consegue pensar em comida sem o sentir sufocar, mas uma hora e tal depois de me levantar sabe-me bem sentar-me num sítio calmo, a desfrutar de uma boa dose de vitamina C e de um croissant. Qual é a dificuldade? Encontrar um lugar que tenha uma boa relação qualidade - atendimento. O desafio extra? Descobrir um cantinho sem os "loucos" da minha cidade…
Um dia destes, daqueles cheios de afazeres acumulados, levou-me a um estaminé diferente, nos arredores. Ainda não tinha estacionado, já um sem-abrigo com aspeto duvidoso me estava a dizer pelo vidro do carro se me podia pedir um favor. Ao entrar no café, uma senhora falava alto sozinha enquanto os presentes se riam, provavelmente já habituados àquele espetáculo de variedades matinal. Comecei a perceber que os loucos da minha cidade afinal também existem nos subúrbios.
Ao aproximar-me do balcão para fazer o pedido, um senhor de meia-idade, de roupas espampanantes e sorriso desdentado, trazia a louça das mesas do café e disse à menina do caixa: 
- Já viu? Hoje comecei o meu turno cedo!
Percebi que era comum o senhor contribuir na limpeza das mesas e não me consegui impedir de esboçar um sorriso… Fui apanhada! O referido indivíduo disse logo:
- Já falo consigo!
Tentei encolher-me, pedi o meu pequeno-almoço e apressei-me para uma mesa vazia, amaldiçoando a hora em que sorrira e, embora ansiando por uma refeição descansada, instruindo-me mentalmente para me apressar. Mas o senhor não me dava tréguas. Enquanto continuava a levantar louça das outras mesas, falava alto:
- Não pense que escapa! Eu vou ter uma conversa consigo!
Envergonhada e irritada, não sei bem se disse ou se apenas pensei:
- Por favor, deixe-me tomar o pequeno-almoço descansada!
Por fim, aquele sorriso quase sem dentes veio junto da minha mesa e disse-me:
- Não é nada de mal, menina. Não lhe quero roubar tempo. Só lhe quero dizer uma coisa e a menina vai gostar. E aposto que se vai rir. A menina é muito bonita!
Apanhada desprevenida, senti-me corar, mas sorri… Ele continuou:
- Eu não disse que a menina ia gostar? E sabe como é que eu sei que é bonita? Porque a menina sorriu para mim sem me conhecer. E quem faz isso é bonito por dentro! E sempre que alguém me faz isso eu tenho de falar com essa pessoa para lhe dizer! Tenha um bom dia!
E foi-se embora, sem me importunar mais. Fiquei embasbacada. Já não precisava da vitamina C do sumo de laranja para ter forças de enfrentar o próximo "louco" da minha cidade… E não demorou a aparecer:
- Ai, menina, se não se importa que me sente na sua mesa… Não gosto nada de tomar o pequeno-almoço sozinha. A minha filha…
Sorri… Não queria deixar de ser bonita!

sábado, 8 de agosto de 2015

Fendas...


"(…) todos temos fendas. Como se todos nós começássemos por ser um pequeno barco. Depois vão-nos acontecendo coisas: pessoas abandonam-nos, ou não nos amam, ou não nos percebem, ou nós não as percebemos a elas, e perdemos, falhamos e magoamo-nos uns aos outros. E o barco vai abrindo pequenas fendas. E, sim, quando o barco abre fendas, o fim torna-se inevitável. (…) Mas há imenso tempo entre o momento em que as fendas começam a aparecer e o momento em que finalmente nos afundamos. E é só durante esse tempo que podemos ver-nos uns aos outros, porque conseguimos ver para fora de nós mesmos através dessas fendas e para dentro dos outros através das fendas deles. (…) quando se abrem fendas no barco, a luz consegue entrar. A luz consegue sair."
John Green

Revejo-me nesta sucessão de metáforas. Ao longo dos anos, fui (e não fomos todos?) colecionando fendas. Este pequeno e frágil barco que sou há muito que deixou de ter um casco imaculado e resistente a todas as tempestades. Fustigado por ventos e marés mais agrestes, foi ficando com alguns rombos. Alguns foram tão grandes que temi o naufrágio das forças, o afogamento da alma. Mas aqui estou.
Por esses rombos fui espreitando e conhecendo outras embarcações como eu. Fui estendendo a mão e aceitando ajuda para os remendos ou esticando os braços e colaborando nas reparações dos outros. E assim fui (e vou) navegando, mais cautelosa e evitando mares desconhecidos para não ser apanhada em tempestades inesperadas.
Mas não desisti de procurar a luz. Quando ela se derrama pelas fendas do meu barco, agarro-me a ela. Às vezes é apenas um fogo-fátuo passageiro, de outras nem chega a ser um pirilampo. Instantes, dias, experiências, pessoas… Sempre que trazem raios de luz deixo-os aquecerem-me. E a travessia fica mais confortável e a pele da alma mais aconchegada. Prossigamos...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Regras...


REGULAMENTO
(Aos praticantes do sonho)

Artigo 1º
Não estacione o coração em becos sem saída (demore o tempo estritamente necessário para largar despedidas ou carregar abraços)

Artigo 2º
Se beber, com o intuito de se lavar por dentro, não conduza (é quase impossível dar banho ao pensamento sem molhar a lucidez)

Artigo 3º
Antes de atravessar a realidade, pare, escute e olhe, certifique-se de que não existem ilusões em contra-mão (descalce os caminhos que já não lhe servem - caminhos são sapatos que a terra nos oferece para descalçar irrealidade)

Artigo 4º
Não abra a boca a beijos desconhecidos (especialmente aos conhecidos que se fazem desconhecer)

Artigo 5º
Evite adormecer em sonos usados (cansam mais do que subir o infinito a pé)

Artigo 6º
Seja mais sonhamor e menos sonhador (a dor não faz falta. Cria ausências)

Artigo 7º
Nunca faça amor em locais proibidos, salvo em legítima defesa da saudade.

Heduardo Kiesse (poeta angolano)

Este conjunto especial de regras fez-me pensar em como vivemos aprisionados pelas grilhetas do que há para fazer, de horários, de listas de tarefas, de prazos a cumprir e de rotinas durante grande parte do ano (e da vida). Chega uma altura em que temos de instituir uma nova regra: não ter regras, nem que seja por apenas alguns dias ou idealmente por um mês (pelo menos!).
Ao abrigo desse novo e temporário (des)regulamento, o despertador será o sol a bater na cara; o pequeno-almoço poderá ser ao lanche e o almoço ao jantar; a roupa terá o padrão da frescura e o calçado a textura de um areal; os óculos irão à cara para desbravar a montanha de livros a ler (só aqueles que nos chamam pelo nome que é nosso e não os que se impõem por nos terem sido oferecidos e sugeridos e por acharmos que temos de conhecer por dentro); os planos serão feitos consoante a meteorologia da vontade e os sonhos coloridos habitarão todas as sestas de cada entardecer.
E assim se cumprirá a única regra que se deveria impor a alguém: deverás ser feliz durante o máximo de tempo possível e transmitir essa felicidade aos que conheces. Porque só isso é obrigatório. Só isso é urgente. Só isso é qualidade de vida.  

sábado, 20 de junho de 2015

Sofrimento(s)...


"Muito se tem falado sobre o sofrimento dos professores. Eu, que ando sempre na direção oposta, e acredito que a verdade se encontra no avesso das coisas, quero falar sobre o contrário: a alegria de ser professor, pois o sofrimento de ser um professor é semelhante ao sofrimentos das dores de parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho."
Rubem Alves

É fim de ano letivo. Os professores estão cansados, talvez quase esgotados. Sofreram durante mais um ano letivo. Isso é inegável. Mas os que realmente continuam a ser e a querer ser mestres sabem que bastam as quatro semanas de agosto para se esquecerem de todas as dores sentidas.
Ainda é junho, ainda este ano escolar não acabou de arrefecer e já eles pensam no que podem e querem fazer no próximo. Despedem-se dos seus alunos, de alguns apenas até para o ano, de outros até para que a vida os cruze de novo, sabendo que vão ter saudades dos seus sorrisos barulhentos a entrar pela sala de aula.
Se querem e precisam urgentemente de férias e de descanso? Claro! Se querem e precisam inegavelmente de continuar nesta vida-missão que escolheram? Indubitavelmente. Apesar das feridas que nem sempre têm tempo de fechar e sarar para que se abram outras. Apesar dos Velhos do Restelo que lhes rogam pragas entre dentes ou alto e bom som.
Mas eles teimam (e vão teimar!) em continuar a olhar a imensidão deste oceano de oportunidades para ensinar e aprender que é a vida. E vão-se deixar levar pelas ondas do seu próprio entusiasmo. E hão-de descansar no areal de cada verão enquanto vão planificando na sua alma de professores a travessia a iniciar no próximo setembro...

sábado, 13 de junho de 2015

As crianças e a educação...


"Children aren't coloring books. You don't get to fill them with your favorite colors."
Khaled Hosseini

Findo mais um ano letivo (pelo menos em termos de aulas, apesar de ainda haver muito trabalho a fazer!), reflete-se sobre tudo o que foi feito e sente-se a emoção e a nostalgia que assinalam o desfecho de mais uma etapa.
Recordamos alunos que chegaram às nossas mãos há cinco anos atrás, cheios de infância no olhar e nos modos, e sabemos que os entregamos ao futuro a transbordar de uma adolescência que já quer entrar na idade adulta. Passamos o olhar pelas fotografias que fomos tirando e acompanhamos em retrospetiva o seu crescimento.
Não foram, de facto, simples livros de colorir para enchermos com as nossas cores favoritas. Mas encheram-se de cores vivas e lindas. Também não as escolheram sozinhos. Partimos de uma só paleta: a educação. Foi nela que misturamos as sugestões deles com as nossas orientações. 
E assim se fez escola, alegria, vida! Sei que um dia vou poder folhear as páginas do seu sucesso e que vou sorrir perante as ilustrações que também ajudei a preencher. E é isso que me dá a certeza de querer continuar a fazer o que faço, dia após dia, ano após ano!