Fotografia by Né - Ribeira dos Caldeirões, Achada - Nordeste São Miguel Açores

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Inspiração para a reta final...


Aproxima-se a reta final de mais um ano letivo e o cansaço já faz arrastar as últimas tarefas burocráticas… Adia-se a escrita do famigerado relatório de avaliação de desempenho docente e vai-se dando conta de outros mil e um pequenos afazeres que se foram acumulando e para os quais também não há muita energia… Sou professora de sala de aula, de aulas para preparar e dar, de alunos com quem partilhar e a quem sorrir (ou ralhar, quando se justifica!). Esta fase sem eles é necessária, até porque os ouvidos precisam de respirar uma certa serenidade, mas a verdade é que qualquer escola sem alunos parece quase um deserto. Estando neste estado de alma e neste cenário, recebi já há uns dias o texto que escolho partilhar, porque me fez sorrir com alma, agradecer aos que ainda dão algum valor a esta nobre missão que escolhi e inspirar-me para o último sprint

Os Professores

Achei muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.

A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.

Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.

Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.

Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falamos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.

Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.

Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.

Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.

As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.

Valter Hugo Mãe


domingo, 13 de julho de 2014

Lixo...


Não suporto o cheiro a lixo... Sobretudo quando ele vem das pessoas...
Pessoas? Terão essa capa, mas no interior apenas oco resquício de humanidade. E mesmo esse é ignorado quando remexem na vida alheia em busca de um rasto de destruição.
Quando não o encontram, inventam-no e seguem-no, proclamando-o tão verdadeiro como se o tivessem descoberto. Divertem-se nesse jogo da apanhada e fazem dele uma maratona... Quando não a estão a correr, ocupam-se nos treinos para a disputar...
E eu? Eu não suporto o cheiro a lixo... Gosto do cheiro a bondade, a respeito, a privacidade. E vou colecionando as pessoas que cheiram assim. São cada vez mais raras e não as procuro. Encontro-as, de vez em quando, enquanto passeio pelos jardins da vida. Contemplo-as, fotografo-as com a objetiva da alma e guardo-as para sempre no álbum das melhores recordações de uma vida. É esse o álbum que quero ser apanhada a folhear no meu derradeiro dia...

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Wise Crayons...


"We could learn a lot from crayons: some are sharp; some are pretty; some are dull; others are bright; some even have weird names, but they have all learned to live together in the same box."

Lembrei-me desta sabedoria na semana passada, ao voltar a pôr os pés (e o corpo todo!) num transporte público. Sempre andei de autocarro enquanto estudava, desde o 5º ano até ao último da Universidade. Estou grata aos meus pais por não me terem tirado essa experiência de vida, uma vez que considero que ela me tornou uma pessoa bem mais paciente e tolerante.
Tais características são muito importantes, uma vez que a convivência diária com o Outro nem sempre constitui um desafio fácil. Apesar de termos de partilhar esta caixa que é a vida, fomos concebidos com diferentes cores, feitios, invólucros e até cheiros... O espaço que nos foi destinado tem de ser bem gerido para que não choquemos com os que nos rodeiam, sob pena de os amolgarmos ou até partirmos.
É pena que nem todos os lápis que coabitam os mesmos lugares connosco tenham conhecimento disto ou o lembrem na sua ação diária. É por isso que muitas vezes chegamos a casa no fim de mais um dia e temos de nos "lavar" das marcas de cores alheias que teimam em cravar-se em nós, ameaçando fazer desvanecer a que era genuinamente nossa...

domingo, 6 de julho de 2014

Dor...


"A dor é como o tecido: quanto mais forte é, mais valor tem."
John Green

Sou mulher de letras e de livros... Mas nem só de clássicos vive a minha leitura.
Há umas semanas agarrei no livro A Culpa é das Estrelas na livraria e só o larguei quando acabei de o ler dois dias depois... Tinha pegado nele por curiosidade, porque queria ver o filme, mas primeiro conhecer a obra que lhe dera origem. Não me envergonho de dizer que chorei.
Ontem fui ver o filme e voltei a chorar. Chamem-me lamechas, se quiserem.
Chorei pelos amigos que perdi devido à Doença. Chorei pelos amigos que lutaram contra a Doença. Chorei pelos amigos que ainda lutam contra a Doença todos os dias. Chorei por aqueles que vão lutar contra a Doença e ainda não o sabem.
Mas, se a culpa é das estrelas, eu agradeço a esses corpos brilhantes por terem permitido que eu conhecesse e conheça todas essas pessoas, porque sem elas a minha vida teria sido bem menos infinita de possibilidades felizes...

terça-feira, 1 de julho de 2014

Recordar é viver...


"You can love someone so much, but you can never love people as much as you can miss them."
John Green

Ontem fez mais um ano que partiste... Já lá vão cinco, mas, ano após ano, acontece esta viagem nostálgica a uma infância em que me encheste de carinho e ensinaste que havia sempre mais energia dentro de nós para dar ao mundo e que sorrir nunca era demais (e falar também não...).
Quando dou por mim a tagarelar sem descanso, lembro-me de ti e sorrio... E sei que esse sorriso contém a gratidão, o respeito e a homenagem de quem me passou o testemunho da vida em primeira mão...

domingo, 22 de junho de 2014

Espinhos...


Há umas semanas deparei-me, a meio do livro que andava a ler, com esta história que já conhecia:

"Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Então, os porcos-espinhos resolveram juntar-se em grupo, pois assim aqueciam-se e protegiam-se uns aos outros.
Mas os espinhos feriam os companheiros mais próximos - justamente os que forneciam mais calor. Por causa disso, eles voltaram a afastar-se.
E começaram de novo a morrer congelados.
Então viram-se obrigados a fazer uma escolha: ou eram dizimados da face da Terra ou aceitavam os espinhos do próximo.
Com sabedoria, decidiram unir-se mais uma vez. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima pode causar, uma vez que o mais importante era o calor do outro. E assim sobreviveram."

Dei por mim a pensar como grande parte da nossa existência decorre exatamente na análise da dicotomia dor/calor humano. Sabemos que, quando nos aproximamos das pessoas, isso faz com que criemos laços que acabarão necessariamente por nos magoar de uma maneira ou de outra, porque as relações humanas nunca trazem só coisas boas. Aqueles de nós que já saíram muito magoados de relacionamentos anteriores deixam, por vezes, prevalecer esse prato da balança e refugiam-se em si próprios, fugindo ao contacto com o outro. Mas o frio acaba por chegar e o calor que os outros emanam consegue ser bastante persuasivo. Decidimos desafiar a dor, preparando-nos para as eventuais feridas e enroscamo-nos no aconchego de quem nos pode aquecer a alma...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Tributo...


"I've learned that people will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel."
Maya Angelou

Com a azáfama de fim de ano letivo e o tempo a ser ainda mais escasso, não consegui vir aqui escrever algumas palavras sobre a mulher que nos deixou este pensamento e esta certeza. Faço-o agora, até porque as homenagens às pessoas intemporais não têm data nem hora marcada.
Conheci a sua obra na Universidade e as suas palavras encontraram eco dentro de mim, dando mais força aos meus próprios ideais. Longe de se cingirem ao clamor de uma afro-americana, os seus escritos veiculam o desejo de liberdade e de individualidade que deve existir dentro de cada um de nós. Quando o lemos nas palavras de outras pessoas, identificamo-nos, sentimo-nos legitimados e ficamos mais fortes.
Por isso, Maya, o meu "caged bird" ficou mais livre ao ler-te e permitiu-se voar com mais convicção pelos céus da vida, trazendo-me onde estou hoje. Obrigada por não me permitires esquecer tudo o que me fizeste sentir...